Sempre que escrevo sobre perdão, percebo que esse assunto nunca se esgota porque há muita confusão sobre o que é perdão. Não podemos praticar aquilo que nem mesmo sabemos o que significa. E se tentarmos perdoar numa perspectiva errada, é possível que não tenhamos, de fato, perdoado. A bíblia é o nosso manual e nela você pode encontrar tudo que precisa para ter um bom relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo. O perdão para com o próximo só é possível quando entendemos o perdão de Deus diante dos nossos próprios erros e pecados. É preciso reconhecer que os nossos pecados são tão graves que custaram a morte de Jesus. Por causa dessa morte, foi possível que Deus nos perdoasse. Nessa perspectiva, ninguém foi mais perdoado do que eu e exatamente pela única pessoa que não tinha obrigação nenhuma de fazê-lo. A perfeição e a justiça de Deus são suficientes para me condenar eternamente, mas Ele escolheu me perdoar. Então, porque nós, pecadores e limitados, temos tanta dificuldade de fazer o mesmo com quem errou contra nós?Isso parece até um absurdo: Um Deus perfeito oferece perdão a todas as pessoas, mas pessoas inperfeitas negam perdão a todas as pessoas igualmente imperfeitas ou a algumas delas. Portanto, perdoar alguém está mais ligado a você e ao perdão que você mesmo(a) recebeu de Deus do que ao nível de gravidade do erro ou a quem errou contra você! Essa verdade é a única mola propulsora que lhe levará à prática do perdão. Além disso, perdoar é um mandamento e não uma sugestão de Deus. Portanto, apesar da dificuldade emocional de exercitar esse mandamento, o que tem que ser feito é decidir fazê-lo, mesmo sem o consentimento das emoções. Precisamos decidir perdoar como um ato de obediência a Deus, priorizando o nosso relacionamento com Ele e uma vida de paz interior, sem contaminação da mágoa e sem alimentar raízes de amargura, pelo contrário, arrancando o ressentimento pela raíz. Se alguém insiste em não perdoar, talvez não tenha ainda experimentando o perdão de Deus em sua vida e por isso, se considera justo e constitui-se juiz da situação. Esse peso de juiz torna-se insuportável e impede que Deus entre na situação como Justo Juiz. Perdoar não significa concordar com o erro ou minimizar os prejuízos que lhe foram causados. Deus nos perdoa, mas não significa que Ele concorda com nossos erros ou que eles deixaram de ser graves porque foram perdoados. A gravidade do nosso erro nunca diminue por causa do perdão. Apenas quem teria o direito de cobrar por esses erros, decide cancelar a dívida. Perdoar não é achar que você está conivente com a impunidade, mas simplesmente é sair de cena e deixar que Deus cuide da pessoa e trate o erro dela. Quando tentamos punir alguém pelo que essa pessoa fez, acabamos assumindo um lugar que não é nosso, deixamos de ser vítima e nos tornamos vilões e perdemos a comunhão com Deus. Devemos nos lembrar que a nossa justiça própria é como "trapos de imundícia" (ou seja, é como pano sujo de menstruação). Esse é o nível máximo em que chegamos quando tentamos exercer a nossa justiça.
Mas falemos sobre a reconciliação que tem sido confundida com perdão. Muitas pessoas são cobradas a terem que reatar um relacionamento para provar que realmente perdoaram. Somos agentes de reconciliação e realmente QUANTO DEPENDER DE NÓS, devemos ter paz com todos os homens. Quem escreveu isso foi o apóstolo Paulo e ele sabia que haveriam situações que fugiriam do nosso controle ao ponto de ser impossível manter a paz com algumas pessoas. A bíblia diz que nos últimos tempos, as pessoas serão irreconciliáveis. Isso acontece porque simplesmente pessoas não desejarão mudar, permanecerão em seus erros e isso as tornará pessoas de impossível convivência. Mas isso não significa que essas pessoas não devem ser perdoadas. Não existe critério para perdoarmos alguém. Os critérios existem na hora da decisão de voltar a conviver. Entenda que há situações que a reconciliação independe de nós. Ela não irá acontecer baseada apenas em nossa vontade de voltar a se relacionar. Por isso é importante fazer essa distinção entre perdão e reconciliação. As vezes, quem nos machucou já morreu. Como nos reconciliar? Porém, podemos liberar o perdão! Às vezes, a pessoa é um desconhecido que nunca mais veremos, por exemplo, um desconhecido que abusou de alguém na infância. Como reconciliar? Então, somente o perdão já será libertador. Às vezes, a pessoa que lhe machucou é do seu ciclo de amizades, é seu líder ou seu liderado, ou é até mesmo um parente muito próximo, como um cônjuge, um pai ou mãe, um filho, um irmão. Mas essa pessoa já demonstrou claramente que não quer mudar de atitude e algumas dessas atitudes são, inclusive, perigosas e criminosas. Neste caso, esta pessoa faz parte do rol dos irreconciliáveis que a bíblia relata. Mesmo assim, é possível perdoá-las ainda que jamais seja possível reatar a convivência. Reforço que a bíblia diz que SE POSSÍVEL, quanto depender de nós, devemos ter paz com todos. Isso significa que haverá situações em que mesmo fazendo nossa parte, a paz não será possível. Mas o perdão sempre é algo possível e depende apenas de você.
Essa distinção entre perdão e reconciliação também não tem o objetivo de você perdoar e já predeterminar a distância da pessoa que você perdoou, sem nenhuma tentativa de reconciliação quando ela é totalmente possível (Isto é, quando há genuíno arrependimento e comprovada mudança de atitude da pessoa perdoada). Deus perdoa e busca a reconciliação, mas respeita a outra pessoa quando ela não deseja isso. Quando você perdoa e não tenta a reconciliação em situações possíveis, na verdade, seu perdão torna-se uma decisão que demonstra orgulho, sua distância se torna uma forma de punir a pessoa "perdoada" e, ai sim, demonstra falta de perdão. Precisamos discernir entre a reconciliação possível e a impossível, pois ela não pode ser algo imposto e forçado. Depende do desejo de todas as pessoas envolvidas. Quando reconciliar torna-se uma tarefa impossível, não permita que a culpa aprisione a sua vida e escolha viver o perdão, que já é o bastante para ter paz com Deus!
Adriana Garcia

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